Você tem fome de quê?

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Dentre as tantas “fomes” que tenho, a leitura é uma das que se destaca. Já devorei livros com muita intensidade, bem mais do que agora. Mas, estou sempre lendo e buscando conhecimento em várias fontes.
Vasculhando alguns livros ontem, saltou aos olhos Conversas Sobre Política” , Rubem Alves, da Editora Verus. De pronto tive dois pensamentos: lembrei de uma amiga que compartilha do mesmo apreço pelo autor e lembrei da forte impressão que tive quando li uma crônica desse grande mestre pela primeira vez. Recebi um email do meu irmão (há tempos) com o texto abaixo e gostaria de compartilhar com vocês. Como disse, sabiamente, minha amiga Lule: “…ele escreve na medida certa…”.





UM RITUAL ANTROPOFÁGICO

(Rubem Alves)

Antropofagia é comer carne humana - coisa selvagem. Mas os chamados selvagens não pensam assim. Uma tribo de índios brasileira que pratica a antropofagia assim se justifica: “Vocês, que se dizem civilizados, não amam os seus mortos. Fazem buracos profundos e os enterram, para serem comidos pelos vermes. Nós, ao contrário, amamos os nossos mortos. Não queremos que eles estejam mortos. Mas eles estão mortos! Só existe uma forma de mantê-los vivos: se nós os comermos. Se nós os comermos, sua carne e o seu sangue continuarão vivos nos nossos próprios corpos”.
A antropofagia não se faz por razões alimentares. Não se trata de um churrasco. É um cerimonial mágico. Acredita-se que, ao comer o morto, as suas virtudes são incorporadas naqueles que o comem.
A psicanálise concorda. Ela acredita que nossa personalidade é formada por sucessivas refeições antropofágicas, nas quais devoramos um pedaço de um, um pedaço de outro. Claro, ela não usa a palavra “antropofagia”. Usa a palavra “introjeção”, que significa “colocar dentro”. Mas “colocar dentro” é, precisamente, comer. A eucaristia é um ritual poético antropofágico: “Esse pão é o meu corpo: comei. Esse vinho é o meu sangue: bebei.”
O escritor mineiro Murilo Mendes, no seu livro A hora do serrote, diz algo mais ou menos assim:

“No tempo em que eu não era antropófago - no tempo em que eu não devorava livros - pois os livros não são feitos com a carne e o sangue dos que escrevem?”




Há livros que são lidos e o seu conteúdo não passa da cabeça. Informações. Ciência. Há outros livros, entretanto, que são comidos, vão direto para as entranhas, coração. Saber “de cor” = saber com o coração. Nietzsche dizia amar somente os livros escritos com sangue. E Guimarães Rosa, que se dizia mágico e feiticeiro da palavra, esclarecia que na sua literatura se encontrava a “alquimia do sangue do coração humano”. Pois é isso que eu desejo: ser comido.



As coisas que você vai encontrar na minha casa são pedaços de mim. Não importa que seja livros, jardins, poemas, restaurante, fotos, músicas: todos são pedaços arrancados de mim. Como disse, o objetivo da antropofagia não é gastronômico, é mágico: fazer com que o corpo do que come fique parecido com o corpo do que é comido.
É isso que eu quero. De forma especial, desejo que você veja da forma como eu vejo. Gostaria de dar-lhe os meus olhos. Se você vir como eu vejo, então não precisarei mais falar e escrever… Nos sonhos freqüentemente a casa simboliza o corpo. Minha casa não é para ser visitada. É para ser comida.


Bom apetite!
rubem alves
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E você tem fome de quê?
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Este artigo pertence ao CataBlogando Saberes. Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.

4 Comentários:

Rocio Rodi

Max,

Que gostoso esses reencontros com os textos do Rubem Alves, ele repete algumas de suas ideias e sentimentos, ou mlehor, faz intertextos, em diferentes textos e com novos sentidos. Maravilhoso! A parte que aludo sobre fome é esta aqui, dele mesmo só que agora em releitura de Adélia Prado, “O comer não começa com o queijo. O comer começa na fome de comer queijo. Se não tenho fome é inútil ter queijo. Mas se tenho fome de queijo e não tenho queijo, eu dou um jeito de arranjar um queijo…”, em "A arte de produzir fome", no seguinte caminho: http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u146.shtml.

Gosto muito do significado antropofágico, comer os mais velhos para nos tornar sábios como eles. Devoramos os livros com os olhos, as viagens, o deleite, o questionar-se neles... O movimento antropofágico existente no Brasil incorporou os ideais de "devoração crítica" necessária... a fim de abrir melhor os nossos olhos e ampliar as possibilidades de ler o mundo. Eu quero é fome! Nada de piloto automático. Você tem fome de quê?

Em minha última postagem falei dessa "fome" qualificando o "estado" das crianças na hora da recreio quando eu "assistia" as serventes distribuindo a merenda... Que fome é essa? Esse diálogo de Rubem é a que me referia.

Muito bom estar aqui.

Max Martins

Oi, Maria

Rubem Alves é um excelente escritor.
O sentido que esse texto dá à antropofagia é exatamente o sinto, essa fome de saber sempre mais sobre o máximo possível de coisas, através da leitura e da experiência dos outros. Percebo que partilhamos do mesmo apetite.

Fico feliz que goste do meu (nosso) cantinho.

Forte abraço

Rocio Rodi

Max,
Quero corrigir ou valorizar a forma como "vejo" os textos de Rubem, a analogia que busco é similar às releituras de Monet, vê a mesma paisagem, na mesma perspectiva com luzes diferentes, as cores se transmutam, a textura nos toca, remexe e sutilmente nos exige atitudes após tantas, silenciosas e diversas combinações, descartes e retomadas.
Dormi ontem e acordei com vontade de fazer esse retoque... Agora estive mais livre, deixei os projetos avaliados prontos. Ufa! terminei o bocado. Espero que melhorem.
Entendi o sentido da antropofagia por aqui, dose a ansiedade, a procura e a sua reflexão na escrita, ali é o teu momento copntigo mesmo, ali você se percebe e aprende a lidar com a própria autocrítica.
A escrita é o termômetro de nossas leituras de mundo e principalmente de nosso interior e da forma como externalizamos esses sentimentos.
- Como você se toca? Boa auto-estima!
Legal, adoro ler, comentar, silenciar, ouvir, aprender.
Beijinhos relaxantes!

Max Martins

Ei, Maria

Eu fico muito feliz com a sua participação aqui...sempre. Tu és, praticamente, co-autora do blog de tantas e excelentes contribuições.

Beijão

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